Com fome e auxílio menor, organizações se mobilizam por doações

Na segunda onda da pandemia, a demanda por cestas básicas está maior, enquanto os preços dos alimentos dispararam e as doações diminuíram

Fonte: Portal Vermelho
 

Além do medo de ser contaminado e da dor do luto enquanto crescem casos e mortes por Covid-19, milhões de brasileiros enfrentam também a dor da fome. Um levantamento da Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar (Rede Penssan) mostrou que, no final de 2020, 19 milhões de pessoas conviviam com insegurança alimentar grave. Mas é uma realidade que vai além da documentação em números, e é acompanhada de perto por quem trabalha com ações sociais.
 

Representantes de entidades da sociedade civil ouvidos pelo Portal Vermelho relatam que a demanda por ajuda na forma de cestas básicas ou outros itens explodiu mais uma vez, após ter recuado em meados do ano passado, quando houve uma diminuição no número de casos do novo coronavírus. Dessa vez, no entanto, a situação está mais cruel. Os preços dos alimentos dispararam e as doações caíram, seja porque as pessoas estão empobrecidas, seja porque a disposição para doar arrefeceu em comparação com o período em que o vírus chegou ao Brasil, em fevereiro de 2020.
 

A Organização Não-Governamental (ONG) Ação da Cidadania contra a Fome e a Miséria pela Vida, conhecida por liderar uma campanha nacional contra a fome após se fundada em 1993 pelo sociólogo Herbert de Souza, o Betinho, lançou este ano a campanha Brasil Sem Fome buscando alavancar as doações. Segundo a ONG, nos três primeiros meses de 2021 a média mensal de cestas compradas e distribuídas foi de 8 mil, 90% a menos do que e média de 80 mil registrada em 2020.
 

“A gente está em um momento muito difícil. A gente viveu do final de dezembro até agora sem o auxílio emergencial, em um momento em que o desemprego bate todos os recordes e as doações reduziram de uma forma brutal”, afirma Rodrigo Kiko Afonso, diretor executivo da Ação da Cidadania. Segundo Rodrigo, após o lançamento da campanha a tendência de queda nas doações começou a ser revertida. Mas, com o valor baixo do auxílio, ele vê poucas perspectivas de melhora.
 

“A gente entende claramente que o auxílio emergencial é muito pouco. É algo que não vai impactar significativamente essa população, pois mal dá para comprar uma cesta básica completa e retira as pessoas que recebem Bolsa Família. [O auxílio] era uma esperança dessas famílias e foi entregue algo que não as atende. Não há horizonte de no curto prazo de retomada da economia por conta da vacinação lenta e o governo não está fazendo sua parte em termos de prover condições de sobrevivência”, avalia o diretor executivo.
 

Segundo Rodrigo, é falsa a noção de que os brasileiros em situação de vulnerabilidade social não temem o vírus. Ele afirma que eles temem, sim, ir às ruas, mas não há condições para fazer isolamento. “Um mecanismo que o governo adota é não oferecer ferramentas para que as pessoas fiquem em casa. Não há um planejamento, uma visão conjunta. É uma ilusão [dizer] que as pessoas mais pobres, em vulnerabilidade social, não tenham medo de se contaminar. Elas têm um medo absoluto. Mas elas vivem no limiar da morte. ‘Ou morro do vírus, ou morro de fome’”, comenta.
 

Empobrecimento real

Um dos fundadores da Rede Urbana de Ações Socioculturais (Ruas) , Max Maciel também relata uma queda nas doações na área de atuação da entidade, nas periferias do Distrito Federal. “O empobrecimento aqui é real. A demanda que a gente tem hoje é maior que a quantidade de doações. No ano passado a galera ainda tinha um pouquinho, dividia. Hoje não tem mais. Em 15 dias, entreguei 426 cestas. A minha fila agora é de 500 cestas e todo dia chega alguém. Nós temos que sentar, ver quem pode esperar um pouquinho e quem tem urgência”, conta.
 

Segundo Max, para aliviar a situação, um grupo de assistentes sociais começou a atuar de maneira voluntária junto à Ruas. Esses profissionais levantam informações sobre as famílias e verificam quem pode receber o Benefício de Prestação Continuada (BPC) e o Bolsa Família, por exemplo.
 

“A gente nunca fez isso [distribuir cestas] porque a gente acredita na autonomia popular. E é muito dolorido, está todo mundo cansado. As grandes empresas não entraram mais em contato, no ano passado estavam mais fortes. A real é a vacinação, é o único jeito de frear isso”, comenta.
 

Para doar para a Ruas, basta acessar a página de doações do Fundo de Apoio às Periferias do DF ou, se preferir, enviar um Pix para ruas.rede@gmail.com.
 

Além da vacina, Max Maciel defende um auxílio emergencial maior e um debate nacional sobre uma renda básica universal. “Você freia a questão da desigualdade e começa a discutir equidade. [A renda básica universal] é possível se você taxar os super-ricos, fizer um sistema tributário mais eficiente”, afirma. Max diz ainda que é preciso usar os bancos estatais para ajudar os pequenos empreendedores, que geram a maior parte dos empregos e são os mais impactados pela crise.
 

Sem previsão orçamentária

O presidente da Confederação Nacional das Associações de Moradores (Conam), Getulio Vargas de Moura Júnior, afirma que é preocupante o fato de o Orçamento 2021, aprovado em março pelo Congresso Nacional, não trazer previsão de créditos extraordinários para o auxílio emergencial.
 

“Não prevê créditos nem para a saúde, nem para o auxílio, que não é o de R$ 600. O movimento comunitário tem feito diversas ações no aspecto local. Já começam a se reorganizar os mutirões que foram feitos no ano passado, mas com um fôlego muito menor, não por menos vontade, mas por menos capacidade, mesmo. E no momento em que a necessidade se torna muito maior”, comenta.
 

Segundo ele, o auxílio no valor de R$ 600 ajudou a dar um fôlego às famílias no ano passado. “No segundo semestre [de 2020] veio menor, mas conseguiu segurar as pontas. Mas esse auxílio de 2021, para nós, causa grande preocupação. O relato que a gente recebe é que muitas comunidades estão passando fome, com muitas dificuldades. Por isso, vão surgindo diversas mobilizações contra a carestia. Parece que a gente está vivendo o final da ditadura militar. A tendência é que se intensifiquem tanto as ações solidárias quanto as mobilizações pressionando os poderes públicos.”