“O Brasil só precisa de uma coisa para acabar com a tragédia da fome: vontade política”, diz filho de Betinho

No período em que o Brasil atravessa uma de suas maiores crises sanitárias, com mais de 420 mil mortes por Covid-19, um antigo problema volta a assolar o país: a fome. De acordo com dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e da Fundação Getúlio Vargas (FGV), cerca de 85 milhões de brasileiras e brasileiros vivem com algum nível de insegurança alimentar. Destes, 20 milhões vivem em condições de extrema pobreza, com renda mensal inferior a 157 reais.

Para Daniel Souza, presidente do conselho da Ação da Cidadania, o Brasil experimenta o pior momento dos últimos 30 anos em relação à fome. Segundo ele, nem quando a ONG foi criada, em 1993, a situação era tão grave quanto hoje. Contudo, o filho do histórico ativista Hebert de Souza, o Betinho, defende que é possível reverter esse quadro. Mas, para isso, é fundamental que exista uma intensa participação do poder público ou, nas palavras do próprio Daniel, é preciso que haja “vontade política”.

O ativista recorda que, de 2007 a 2016, a Ação por Cidadania chegou a suspender a campanha Natal Sem Fome por perceber que, naquele momento, havia não só uma real preocupação por parte do Governo Federal, como uma série de políticas públicas sendo de fato implementadas para a erradicação da fome no país. A efetividade de tais ações culminou na saída do Brasil do Mapa da Fome da Organização das Nações Unidas (ONU) em 2014. Para Daniel, todo esse processo comprova que se hoje existe fome no país, não é por falta de recursos ou de capacidade.

“O Brasil tem alimento, tem recurso, tem estrutura e, quando teve vontade política, em 12 anos nós saimos do Mapa da Fome. A gente já mostrou para o mundo que é possível um país tão grande, com uma desigualdade tão grande, superar o problema da fome. Já existe uma ‘cartilha’. Já fomos bem sucedidos nisso”, disse à Pulsar Brasil.

O golpe e a fome

Sobre o atual momento do país, Daniel reconhece que é impossível ignorar o peso da pandemia e suas consequências para o agravamento da crise social. No entanto, para ele, o retorno da fome e dos altos índices de miséria no Brasil é anterior à Covid-19. Remonta ao desmonte de políticas públicas iniciadas no governo de Michel Temer (MDB) e se aprofunda no governo de Jair Bolsonaro (sem partido).

“A pandemia chega em 2020 e encontra um país totalmente despreparado para enfrentar a fome e o desemprego. Se já existia uma crise econômica, ela foi acentuada pela total irresponsabilidade do Governo Federal para lidar com a crise sanitária desde o ano passado”, argumenta.

Sobre a atuação do governo Bolsonaro no enfrentamento à miséria e à fome, Daniel lembra, como momento emblemático, o dia 1º de janeiro de 2019, quando, no primeiro dia de governo, o presidente Jair Bolsonaro extinguiu, através de medida provisória, o Conselho Nacional de Segurança Alimentar (Consea). De lá para cá, “o que o Governo Federal tem feito é simplesmente criminoso”, resume o ativista referindo-se ao desrespeito do Palácio do Planalto ao direito à alimentação assegurado pela Constituição Federal de 1988.

Campanha

Em fevereiro deste ano, a Ação da Cidadania lançou a campanha Brasil Sem Fome, que tem como objetivo levar alimentos às pessoas mais atingidas pela crise da pandemia e pelo fim do auxílio emergencial.

A iniciativa conta com parcerias que envolvem desde organizações internacionais como a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco); Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) e o Pacto Global da Organização das Nações Unidas (ONU) até empresas, mídias, comitês e voluntários nas regiões mais vulneráveis do país. Só em 2021 foram distribuídas cerca de duas mil toneladas de alimentos. Número que se soma às 10 mil toneladas distribuídas ao longo 2020 através das campanhas emergenciais promovidas pela ONG.

Nesse sentido, Daniel chama atenção para o fato de que as atuais campanhas de arrecadação e distribuição de alimentos tem assumido uma dimensão diferente das campanhas de Natal Sem Fome realizadas na década de 1990 e início dos anos 2000. Segundo ele, o Natal Sem Fome trazia a mensagem de que “pelo menos no Natal as pessoas podem ter alimento”. Tratava-se, portanto, de um ato simbólico com o objetivo de cobrar políticas públicas de segurança alimentar. Hoje, no entanto, além de assumir um caráter emergencial, as campanhas precisaram se tornar permanentes.

“A gente costuma dizer que não existe vacina contra a fome. Enquanto as políticas públicas não vem, o que existe é um remédio paleativo chamado solidariedade. A Ação da Cidadania e todas as entidades que estão arrecadando alimento em parceria com a sociedade tem feito a sua parte. Mas, além disso, o que precisamos fazer nesse momento é pressionar o governo para que ele simplesmente respeite a Constituição”.

As doações para a campanha Brasil Sem Fome podem ser feitas aqui:  www.brasilsemfome.org.br 

 

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